terça-feira, 18 de agosto de 2015

Keluz

Para Greg

     Todo dia ele saía sempre no mesmo horário. Era um homem regrado. O mínimo distúrbio em sua rotina fazia com que seu ânimo se alterasse. Enquanto a água para o café fervia, ele tomava banho. Cinco minutos cronometrados. A água em fogo baixo. O chuveiro na indicação "verão", para economizar. Tomava a primeira xícara antes de se trocar, usando seu roupão felpudo, azul e chinelos macios, também azuis. O café descia amargo e forte. O roupão caía suavemente. Calça, camisa e gravata. Meias e sapatos pretos. Sempre social. Não havia necessidade. A empresa não lhe impunha o traje, mas ele se sentia confortável e confiante desta forma.
     O guarda-chuva sempre a tiracolo. Não sabia quando seria necessário, afinal, nesta cidade o tempo é imprevisível. Não confiava em meteorologia e odiava as pessoas que liam horóscopo, mas fazia cruzadinhas e caça-palavras. Sentava-se à frente de seu computador - aparelho de tortura imposto pela revolução tecnológica a que as empresas estavam submetidas - e preenchia laudas e laudas com as crônicas que sairiam na edição do dia seguinte.
     Era escritor por vocação, jornalista por necessidade, afinal, os parcos volumes vendidos para estranhos no dia do lançamento de seu primeiro romance e o pouco que entrou depois, mal lhe garantiram um bom fim de semana em Ilhabela. E ele que pensara em viajar o mundo recolhendo histórias e colecionando tipos para seus livros... o mais perto que chegou da Europa foi através dos postais que seus amigos - simples jornalistas policiais e colunistas sociais - enviavam-lhe de suas férias. Era romântico por natureza e amargo por insuficiência de saldo.
     Suas crônicas até que lhe renderam alguma fama. Vez ou outra recebia e-mails com elogios, mas isso não o entusiasmava. Queria ser um escritor reconhecido. Se não houvesse o reconhecimento, poderia ao menos ter o dinheiro. Reclamava do café da redação e do contínuo que sempre deixava a correspondência jogada sobre a mesa. De nada adiantava a caixinha com a indicação "correspondências aqui". Devem ser todos analfabetos, esses contínuos. Não gostava dos redatores e tinha verdadeiro pavor dos colunistas sociais e dos da seção de cultura. Considerava uma traição dos colegas o desprezo com que trataram seu romance. Uma pequena nota sem foto foi tudo o que havia conseguido, isso depois de ajular muito os colegas. Só sabem falar de melodramas onde a menininha bonitinha sempre morre ou de vampiros iluminados. Coisas de velha e de viado.
     E por falar em viado, tinha desprezo total pelo editor-chefe, uma bichinha mal saída da Cásper Líbero que achava-se no direito de questionar sua postura em seus textos, só porque era sobrinho do dono. Pelo menos essa era a desculpa. Achava essa relação titio-sobrinho muito estranha, mas não se atrevia a comentar sobre, afinal, tinha aluguel, supermercado, conta de gás e luz e lavanderia para pagar.
     No final do expediente daquela sexta-feira, depois de horas suando e nada produzido, resolveu que merecia um descanso. Pelo menos merecia um café decente, não aquela água de batata que serviam na redação. Pegou um de seus textos antigos que ficavam arquivados no gaveteiro embaixo da mesa e enviou para que fosse publicado. Era antigo, ninguém se lembraria de já tê-lo lido. Não haveria problemas em republicá-lo. Era atemporal. 
     Afrouxou o nó da gravata assim que entrou no mal iluminado bar. Essas pocilgas estão sempre entregue às moscas. Ninguém faz manutenção e os clientes têm que beber no escuro. Como um bar qualquer do centro da cidade, talvez fosse melhor não vê-lo bem iluminado. Preferiu o balcão à mesa. Não demoraria. Dispensou o café e pediu uma cerveja. Precisava relaxar. Foi atendido por um garçom alto e loiro, de olhos azuis brilhantes. Tomou um gole e mais outro. Outros senhores e rapazes passavam por ele, mas era como se estivesse sozinho. Não conversava com os demais, nem comentava o resultado da rodada. Não tinha paciência para conversa, nem para futebol.
     Depois de mais alguns goles, precisou aliviar a bexiga. Não lembrava de quando bebera tanto. Preguntou pelo banheiro e o rapaz dos brilhantes olhos azuis indicou uma porta pequena bem no fundo do estabelecimento, perto de uma luminária que irradiava uma fraca luz amarela.
     Estava no meio do processo quando a porta abriu e o garçom que o atendera entrou. Parou no mictório ao lado. Olhos para o teto. Nada de olhar para o lado. É a lei universal do banheiro masculino: nunca olhe para o lado.
     - Oi, me chamo Kelvin Luiz, mas aqui me chamam de Keluz. Você está sozinho?
     Mas o que era isso? O cara, além de olhar para o lado estava puxando conversa dentro do banheiro perguntando se eu estava sozinho? O que ele pensou? Que eu responderia?
     Fechou o zíper e foi até a porta. Não lavou as mãos. Perguntou quanto devia e abriu a carteira. O garçom estendeu-lhe o papel com o valor a ser pago e ficou parado, esperando. Entregou uma nota de cinquenta e dispensou o troco. Queria sair dali. Antes de ir, porém, pediu que o rapaz dos luminosos olhos azuis se aproximasse. Iria dizer umas boas para ele e nunca retornaria àquele lugar.
     - Kelvin Luiz...
     - Pode me chamar de Keluz, é como todos...
     Mas não o chamou assim. Agarrou o rapaz pelo colarinho e antes que qualquer pensamento lhe ocorresse, desferiu um beijo em sua boca. Virou-se e saiu. Nunca mais bebeu cerveja.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mulheres...

Para Leonardo Davino

                Já fui como Martinho e tive muitas mulheres, de todas as cores, de várias idades, do tipo acanhada, do tipo feliz... enfim, mulheres como todas as que andam por aí. Algumas não passaram de um copo, outras duraram uma garrafa, poucas, enfim, ficaram para sempre.
                Ainda adolescente conheci Clara, que me tirou da vida errada que eu começava a desenhar para mim, influência de “pseudoamigos” que naquela época só queriam se divertir e aproveitar o momento sem pensar nas consequências que aquilo poderia trazer para as nossas vidas no futuro. Clara era uma mulher de presença, morena de cabelos esvoaçantes e renda branca por quem me apaixonei à primeira vez que lhe vi. Ouvi-la fez-me ter certeza da existência de Deus. Clara era telúrica. Ainda hoje, vinte anos depois da nossa primeira vez continuo amando-a. Ela é para sempre, as outras são para momentos.
                Angela, tive duas: uma era companhia de noites escuras e whisky; a outra, de tangos e baladas. Tive Alaide, Beth e Clementina. Selma, Teresa e Vanessa. Tive espanholas, argentinas e americanas. Canadenses, colombianas e italianas. Dulce era portuguesa, Edith, francesa, ambas com tendência ao amor exagerado e à tragédia. Surgiram em minha vida nos momentos mais difíceis. As minhas nuvens negras se somaram às delas e tempestades invadiram e lavaram as nossas almas. Laura sempre foi romântica e Mercedes, guerreira.
                Rita, também foram duas: uma louca e a outra macumbeira. Sempre fui muito eclético. Nunca me foquei em apenas um nome ou estilo. Marias, por exemplo, nem sei quantas foram e cada uma com seu jeito especial, me tocando de formas diferentes: docemente, fragilmente, libidinosamente. Fabiana era chegada ao pagode, não dispensava arrasta-pé. Mulata faceira. Joanna conheci nos arcos da Lapa e Mariene no Elevador Lacerda.
Enfim, mulheres da minha vida, que fizeram, fazem ou ainda farão parte dela, porque sou visionário e penso no futuro. Mas o mercado está ficando escasso, preciso fazer novas conquistas. Mas isso, amanhã. Para hoje, a agenda já está fechada: café com Simone, almoço com Dolores, jantar com Elza e cama com Lorenna.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A menina que queria ser flor

Para Marili Alexandre

A menina que queria ser flor

            Todo dia era ela quem acordava o Sol. O astro-rei somente saía de sua casa após a garota dar-lhe “Bom Dia”. Quando acontecia de ela estar triste ou doente e permanecer na cama por mais tempo que o costumeiro, nesses dias, por tristeza ou por sentir-se injuriado, o Sol não aparecia, ficava escondido por detrás das nuvens. Seu choro era ouvido através dos raios e trovões e suas lágrimas inundavam a terra levantando um doce cheiro de saudade. Mas bastava que a janela da menina se abrisse para que o Amarelo pintasse imediatamente o dia de azul.
            Rosas, cravos e margaridas. Às vezes girassóis, mas nunca crisântemos. Crisântemos é a flor dos mortos e a vontade da moça sempre foi a de alegrar os vivos com suas flores. Na entrada da feira local ou pelas ruas do bairro a carregar um cesto com suas flores, ela distribuía romance, carinho, paixão... Realizava o sonho de jovens moças que esperavam ansiosas por um buquê de flores em suas portas no dia seguinte, salvava jovens maridos – e os nem tão jovens assim – de algum esquecimento. Muitos aniversários e comemorações foram mais felizes por sua causa.
            Retornava para casa já tarde, acompanhada de seu amigo. Antes de despedir-se, ofertava-lhe um delicado cravo, nunca uma rosa, que á flor da paixão e não fica bem para uma moça dar-se ao desfrute de oferecer-se em flor a um rapaz. Amizade era uma coisa, amor... isso era para casamento. Mas o cravo, esse sim demonstra todo o respeito com que um moço de boa família deve ser tratado. A flor era deixada no gramado ao lado da porta de entrada da casa da menina. Ela entrava sem olhar para trás e o Sol despedia-se morosamente, derretendo-se por detrás das montanhas. A Lua, apaixonada que era pelo Sol, mulher muito dengosa e vaidosa, enchia-se de raiva com esses galanteios. Não compreendia por que o Sol abria-se todo por causa de uma simples flor, enquanto ela que lhe oferecia o brilho de todas as estrelas do universo não dispunha de sua presença. Raramente se encontravam. Acontecia esporadicamente de a Lua permanecer por mais tempo no céu e tocar rapidamente nos raios do Sol, mas ele, com olhos apenas para a menina, fingia não notar seu atrevimento.
            Se a Lua soubesse o quanto a menina também a adorava talvez sentisse menos ciúmes. Pode ser que ela até desconfiasse disso, pois em certos dias era possível vê-la sorrindo enquanto a menina sonhava. E sonhar era o que a garota mais gostava de fazer. Sonhava com coisas de que gostava: de pisar na areia molhada da praia e pegar conchinhas trazidas pelas ondas; de subir bem alto no morro e olhar até enxergar o perder de vista e algodão doce. Adorava sonhar com algodão doce. Ficava imaginando como alguém conseguia ir até o céu para pegar as nuvens e enrolá-las em palitinhos para serem vendidos na feira. Devia ser para isso que serviam as aeronaves. Já ouvira dizer que elas levavam as pessoas pelo ar, mas não acreditava muito nisso. Para ela, os aviões eram imensas colheitadeiras de nuvens para fazer algodão doce. Já havia sonhado que era piloto de uma dessas máquinas e que trabalhava em uma fazenda de algodão doce no céu. Ela sonhava que era um monte de coisas, mas que era sempre ela, nunca o outro, porque sonhar em ser o outro é negar sua própria existência. E ela adorava existir.
            Tinha um sonho que ela gostava mais do que dos outros: sonhar que era flor. Ser flor não é ser gente, então não há problemas em sonhá-lo. Tinha noites em que sonhava que era rosa, uma rosa solitária e vermelha deixada na porta de uma feliz garota. A campainha tocada e de longe um rapaz, escondido atrás de uma velha árvore a via ser pega e tocada delicadamente pelo espanto e pelo calor da amada. O olhar da moça procurava ao redor e depois as duas entravam em casa. Ela seria guardada entre as páginas de um livro de poesias e traria, num futuro longínquo, doces lembranças para as doces rugas da então senhora; outrora era um cravo ofertado a um pai com todo o respeito e admiração que os pais merecem. Já sonhou ser uma vidente margarida bem-me-quer mal-que-quer na angústia de uma adolescente ou um girassol retratado em um famoso quadro que vira retratado em uma revista há algum tempo. Nunca sonhou ser crisântemo, que é flor de mau agouro.
            Durante aquela noite um mal estar súbito a consumiu em calores e água. Por dias o Sol não apareceu, apenas suas lágrimas caindo sem parar do céu. De noite, a Lua ria o sorriso do gato de Alice. Um sorriso branco para uma noite preta. A Lua acreditava ter chegado a sua vez de ser feliz, mas o Sol... nunca estivera tão triste.
            Quando finalmente acordou, dias e dias depois, não mais chovia, mas o chão estava úmido. O quarto estava escuro e algo estranho acontecia: seus braços e pernas estavam compridos espalhando ramas pelo chão; seu coração em flor era rosa desabrochada; seus cabelos, um buquê de margaridas e seus belos olhos haviam se tornado dois grandes cravos. Tinha apenas um desagrado: o lençol de crisântemos que a envolvia.

sábado, 18 de julho de 2015

O que esse garoto tem?

Para Cíntia Oliveira

                Desde pequeno ele sempre fora diferente dos demais de sua turma. Não gostava de jogar bola, tampouco aprendera a empinar pipa ou jogar pião ou bolinha de gude ou qualquer outra brincadeira típica dos garotos de sua idade.
                Ainda na pré-escola sua diversão eram os livros de colorir e as dobraduras. Era um aficionado por origamis. E gostava de cores, não apenas do verde e do azul – cores de menino; mas do rosa e do lilás – cores proibidas. Achava o preto e o branco monótonos. Relacionava-se melhor com as meninas e não via nisso problema algum, como um dia viu sua professora e que, comentando o fato com a mãe do menino, aconselhou-a a procurar um psicólogo.
                - Problemas assim devem ser tratados desde pequeno – disse a professora. Mas o que a mãe ouviu do psicólogo foi que não havia nada de errado com o garoto, que ela o deixasse crescer e desenvolver sua personalidade sem barreiras preconceituosas e forjadas a antigos conceitos de certo e errado e que nenhum dos comportamentos apresentados afetaria o caráter do garoto que até então se mostrou extremamente educado e feliz com sua realidade. A mãe achou o psicólogo um tanto quanto afeminado e não voltou mais ao seu consultório.
                Estaria fadada a ter um filho assim, diferente dos demais? A resposta viria com o tempo. O garoto apresentou problemas de relacionamento na escola. Ora porque não queria participar das aulas de educação física, ora por seu uniforme estar sempre impecável, diferente dos outros que andavam parecendo terem saído da 3ª Guerra Mundial. A camiseta do uniforme por dentro do shorts e as meias brancas esticadas até o meio da canela. O cabelo sempre penteado e arrumado. A mãe até que tentou mudar essa postura do filho, deixando de lavar a camiseta da escola, mas, nem assim conseguiu. Apesar do calor, o filho colocou um pulôver sobre a camiseta suja e foi, todo arrumado, para a escola. O pai ausentava-se de comentários, apenas a mãe afligia-se com o comportamento do filho. O garoto guardava selos de cartas recebidas de parentes do interior em uma pasta, organizando-os por valor e data.
                A madrinha confabulava com a mãe e as tias do menino. Talvez lhe faltasse um exemplo, já que o pai era um zero à esquerda. Os primos poderiam lhe ser úteis. Mas enquanto eles brincavam de guerrinha de bolinhas de barro, o garoto ficava trepado na mangueira do quintal observando o pôr do sol. Não havia jeito. Ele era diferente e a família teria que aprender a lidar com essa situação.
                - É apenas uma fase! – dizia para a mãe o padre da paróquia enquanto tomava chá e comia bolinhos de chuva feitos especialmente para ele. A mãe precisa de alguma orientação, já que o psicólogo... bem... melhor deixar para lá. – A senhora verá que não tem com o que se afligir. Até a adolescência tudo muda, a senhora verá. Eu mesmo era assim quando criança. – A mãe não sentiu-se mais confortada com os conselhos do padre.
                A adolescência chegou e nada se alterou. Pelo contrário, a situação agravou-se ainda mais. Enquanto os colegas iam a bailinhos de garagem em busca de perder a virgindade – da boca que fosse – ele lia romances e colecionava livros antigos; seus amigos, Playboys. O computador já era uma realidade, mas ele mantinha-se fiel à velha máquina de escrever e à caneta bico de pena que ganhou de seu avô. Aliás, era do avô os seus maiores tesouros: fotos antigas da família ainda na Itália e filmes caseiros que assistia em seu projetor; a certidão de imigrante e um velho canivete, que segundo o próprio avô lhe contara, havia sido usado para cortar o cordão umbilical de sua mãe e de seus tios em uma época em que ter filho em hospital era luxo.
                Até tentou uma mudança de comportamento: foi a baladas com os amigos do trabalho, encontrou-se com algumas garotas e tirou diversas selfies. Mas nada disso adiantou. Também nunca namorou. As meninas se afastavam após o primeiro encontro ao perceber que havia algo de estranho com aquele rapaz. Cultivou bigodes como os escritores românticos e, volta e meia, deixava-se embebedar sozinho em casa sentado em uma poltrona ao lado de sua vitrola.
                Nunca baixou músicas da internet nem comprou cds piratas. Era amante do bom e velho vinil, que comprava nas galerias do centro da cidade e em redutos escusos da Mooca. Filmes, somente no cinema ou no seu projetor em casa. Tinha uma sala especial somente para isso: latas de filmes e pilhas de vinil. Alguns raros, filmes e vinis.
                Sua mãe, já idosa e conhecedora do estilo de vida do filho tentava a muito custo conseguir demovê-lo disso que ela chamava de fase e que durava quase 35 anos. O pai continuava omisso.
                - Se é isso que ele quer, o que se há de fazer? – respondia sempre que instigado a tomar providências.
                - Se até eu que já tenho mais de 60 anos mando e-mails e publico receitas no meu blog, por que ele ainda manda cartas e escreve diários? Por que nosso filho se comporta como uma velha?
                Até o dia de sua morte, ela não conseguiu aceitar o fato de seu filho ser diferente dos demais. Ela nunca aceitou ter um filho velha.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Tonho Cachaça

Para Soraia Jarouche

     O batuque começava antes mesmo de o sol se pôr. Aos poucos a turma ia se achegando ao quintal de Dona Selma, que desde cedo tinha começado a arrumar o espaço para receber os amigos que vinham de vários lugares da cidade. A feijoada e o pagode de Dona Selma eram famosos, mas não eram para qualquer um, afinal, sua casa era uma casa de respeito e ali só entravam os seus amigos mais chegados e os amigos de seus amigos, que logo se tornavam íntimos da rechonchuda senhora e eram convidados a voltar nas semanas seguintes. Mas se ela não fosse com a fuça do cabra, era melhor nem passar mais diante de seu portão.
     Toda quarta-feira o grupo se reunia, pouco importava se o dia seguinte era de labuta, a festa ia até de madrugada. Uma tábua era colocada sobre dois botijões de gás vazios, outra sobre duas latas de tinta, assim todos tinham onde se sentar para apreciar o banquete que seria servido. Lugar, comida e música boa não faltariam. Nem a cachaça, mas essa era especial: nada de pinga comprada em supermercado, a de Dona Selma vinha direto do alambique de Tonho Cachaça, figura folclórica da comunidade de Santa Rita  e violeiro respeitado, que possuía um sítio em Minas Gerais. Era de lá que vinha a reluzente bebia que fazia a alegria dos convivas das feijoadas de Tia Selma, como ele a chamava.
     Seu Tonho Cachaça era frequentador assíduo e tinha cadeira cativa: sentava-se na mesa de Tia Selma, numa cadeira à sua esquerda. Nem marido, nem filho ou parentes de Tia Selma podiam sentar-se ali. Só se levantava para tanger as cordas de seu violão junto à rapaziada que se aquietava para ouvir seus Lupicínios, Noéis e Cartolas. Se por algum acaso do destino, seu Tonho faltava à feijoada, o seu lugar permanecia vago, em respeito à sua pessoa. Mas isso havia acontecido raras vezes desde que o pagode de Tia Selma tinha começado alguns anos atrás. Uma vez ele esteve internado e só não compareceu porque foi detido na porta do hospital pelo segurança enquanto tentava fugir; outra vez foi no dia do nascimento de sua filha, Clotilde, como sua mãe. A esposa queria Gabriela, como a da novela e do livro do escritor baiano que ela esquecera o nome e cujo romance nunca lera, mas como quem registra é o pai, no cartório Seu Tonho Cachaça fez prevalecer sua vontade. Nem no dia da morte de sua sogra ele faltou ao pagode de Tia Selma. Deixou todos velando o defunto e foi para o terreiro beber a velha.
     O pagode ia alto e a cachaça baixando no garrafão. Seu Tonho, vermelho, fazendo jus ao apelido. De repente, um moleque atravessou correndo o terreiro em sua direção.
     - Seu Tonho, se aprume que tua mulher tá vindo aí!
    Ele mal teve tempo de colocar a camisa para dentro da calça quando a mulher de Seu Tonho Cachaça rompeu quintal adentro.
     - Eu sabia que ia te encontrar aqui. Nós tudo chorando minha mãe lá em casa e você enchendo a cara? - Naquela época velava-se defunto em casa, em cima da mesa da sala.
     - Enchendo a cara, não! Tô aqui homenageando a tua mãe, minha querida sogra, agora mais querida que nunca.
     - Tu não tem vergonha mesmo, hein?! - disse isso e virou a cara, ameaçando sair.
     - Não reclama, não, que a velha era chegada numa dose da boa. Deve até de estar feliz com a homenagem que eu tô fazendo. - pegou um copo e virou de uma só vez como deve ser feito. - Essa é pra mim! - pegou outro copo e virou novamente - Esse é pra velha! - Só depois foi para o velório da sogra carregando o violão como se fosse parte de seu próprio corpo. Tia Selma ria a não caber-se em si.
     "Galo cantou às quatro da manhã..." e já passava das quatro quando Seu Tonho Cachaça levantou-se e foi embora. Meio tonteado, costurando a rua com o ziguezague de suas pernas.
     - Cumpadre, quer companhia até em casa? Posso mandar um dos meninos contigo... - perguntou Tia Selma, vendo o estado em que o amigo se encontrava.
     - Preciso de pajem, não. Seu Zé tá comigo.
      Tia Selma riu e desejou boa ida ao Seu Tonho. Pouco depois das sete da manhã, foi Clotilde quem entrou em seu quintal.
     - A benção, madrinha!
     - Deus te abençõe, menina. Seu pai esqueceu alguma coisa?
     - Deve ter esquecido é o caminho de casa, porque até agora não chegou lá!
     Na semana seguinte, a cuíca silenciou, o bumbo não tocou e o cavaquinho não chorou. A feijoada estava pronta e os amigos esvaziavam os pratos. Tia Selma estava sentada no seu lugar de costume e à sua esquerda, a Cachaça e o violão, mas não Seu Tonho.
     "Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim..." Nos pagodes de Tia Selma agora há um violão em um canto onde não canta ninguém.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Nariz vermelho

Para Vitor Hugo

                Ainda estava cedo, mas ele não queria se atrasar. Tudo pronto dentro da mochila: uma bandeira de seu país que vestiria sobre as costas, uma garrafa d’água, panfletos de diversos tamanhos e um nariz vermelho, de palhaço. Um jeans rasgado, uma camiseta camuflada, um botton com a face do Che Guevara no peito, tênis sem marca furado. No rosto, uma barba proeminente; no estômago, o resto de um lanche de mortadela.
                Há dias acompanhava o desenvolvimento da greve que ele defendia com unhas e dentes através dos boletins do sindicato e do armário da cozinha. Quanto mais boletins lia, mais o fundo branco do armário aparecida. Mas não desistiria de sua luta. Por anos o partido do governo ignorou a educação em seu Estado e como professor formador de opinião que era não poderia compactuar com os novos golpes contra o giz e a lousa. Senhor de sua verdade, encontrava nos próprios colegas acomodados senhores de outras verdades.
                A distância de sua casa até o local marcado para a concentração dos manifestantes no coração financeiro do país era de dois ônibus, um trem e duas baldeações no metrô. Isso só tornava sua luta mais revigorante. As conquistas valeriam todos os esforços.
                A flâmula vibrava ao vento do planalto sob o vão livre do museu. Verde, amarelo, azul, branco e vermelho, do nariz de palhaço. Trânsito parado. Câmeras ligadas. Ele tinha a certeza de que não era apenas mais um na multidão, era a própria multidão, única, uníssona...
                O suor no rosto e a confiança de ter alcançado o seu objetivo: seria ouvido pelo governador, teria suas reivindicações atendidas. Chegou em casa cansado. Tomaria um banho e sentaria no sofá para assistir aos noticiários. Será que apareceria na TV? Pouco importava. Ele não era ele. Ele era todos e todos eram ele. Cerveja na mão. Cueca samba-canção.
                - Cacete! – cuspiu a bebida na tela, na cara do âncora de terno cinza que narrava enquanto mostravam cenas da passeata:
                “Centenas de professores interrompem tráfego em uma das principais avenidas da cidade fazendo com que o trânsito que já é caótico ficasse ainda pior. Governo diz que reivindicações são infundadas. Agora, vamos à meteorologia”.
                - Centenas? Éramos milhares. Esses jornalistas são cegos? Uma luta pacífica e organizada pela melhoria da qualidade do ensino dessa merda de Estado vira uma pedra no trânsito da cidade? À merda, não vejo mais isso...
                Desligou o aparelho e deu mais um trago na cerveja. Acendeu um cigarro e foi para a pequena sacada de seu apartamento. Fumaça e pensamentos se misturavam sob a luz de uma tímida lua crescente.
                - Corno! – jogou a lata pela sacada. Lá embaixo, no estacionamento, um alarme de carro disparou. – Merda, merda, merda!
                Naquela noite não dormiu, assim como em muitas outras depois. Como era possível ser ignorado pelo governo daquele jeito? Mas não era isso o que tirava o seu sono. Como era possível ser ignorado pelos próprios colegas de profissão? Esse era o motivo de sua insônia. Não compreendia como alguém era capaz de sentar-se a uma mesa, abrir um livro e ministrar uma aula como se nada de errado houvesse ao seu redor? Como essas pessoas que reclamavam dos alunos e do sistema e de tudo o mais durante os intervalos podiam dormir tranquilas? O que era aquilo: eles realmente sentiam-se incomodados ou apenas tinham se acostumar a ser infelizes e reclamar?
                Ele também não estava feliz com o rumo que a greve estava tomando, mas tinha chegado até ali: 30 dias de movimento. 30 dias de esperança. 30 dias de nariz vermelho lutando por melhorias. Se suas reivindicações – suas e dos demais grevistas – fossem atendidas, mesmo que em parte, sentiria ser um vencedor. Nem o fato de suas conquistas serem compartilhadas com os professores que continuaram na escola o incomodava. Esfregaria a vitória na cara deles de qualquer jeito.
                Na sala dos professores, dias depois, sua presença se fez notar. Estava parado à porta, observando.
                - Acabou a greve, professor? -  riu um dos antigos.
                - O que você ganhou? Um zero como os que damos para nossos alunos? – continuaram a rir.
                - “Volta o cão arrependido com o rabo entre as pernas...” – mais gargalhadas.
                “Quanta infantilidade! Por acaso acham que o fato de termos paralisado a greve significa que estamos derrotados? Que besteira! Nem sempre é possível ganhar uma luta, mas o importante é o que se ganha com a luta. O que ganhei? A certeza de que não sou mais um acomodado com o sistema sentado ‘com a boca escancarada cheia de dentes esperando a espera da morte chegar’. Eita Raul, que não deixa os meus pensamentos!” Tudo isso passou em sua cabeça antes de responder, simplesmente:
                - O que ganhei? A certeza de que nunca serei você!

                O sinal tocou. Ele deu meia volta e dirigiu-se para a sua sala de aula. No bolso, o nariz vermelho que outrora representou sua indignação agora enfeitava mentalmente o rosto de seus colegas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quatro Cantos

   Para Ana Paula Sanches Leite

     Ela era uma menininha nessa época. Não a mulher independente e orgulhosa de suas conquistas que viria a ser no futuro presente. Apenas uma garota e isso refletia toda a sua completude. Acordava bem cedo, por volta das seis horas da manhã. Cabelo desgrenhado e remelas nos olhos felizes por mais um dia abertos. Nunca acordava de mal humor. Isso só aconteceria anos depois, quando se tornasse adulta.
     Enquanto tomava banho sua mãe preparava-lhe o café. A roupa já estava separada e colocada sobre a cama: a camiseta branca com o emblema da escola em vermelho, a calça preta de um tecido que ela não sabia o nome, mas que não era jeans nem moletom e os tênis também pretos de cadarços brancos. Anos mais tarde esses mesmos tênis viriam a ser considerados "cults"; naquela época eram apenas tênis de estudante.
     O caminho até a escola era percorrido ao lado da mãe com uma parada obrigatória na padaria da Dona Benita, portuguesa minúscula e que naquela época já era velha. A vitrine de doces e bolos a fascinava como um pequeno rato fascina os olhos de uma víbora. Ela estava pronta para desferir um golpe mortal sobre os bolos e tortas que se anunciavam sem nenhum recato naquela vitrine de vidro. Diariamente repetia esse processo e sempre escolhia uma vítima diferente para não se cansar do mesmo gosto. Segunda-feira era dia de bolo de nozes, sua como todo início de semana deve ser; terça-feira era dia de quindim, seu doce favorito, assim como era dia da aula de artes, também sua favorita; quarta-feira exigia bolo de chocolate para aguentar firme até o final de semana que ainda demoraria a chegar, estava apenas na metade do caminho, ainda faltavam dois doces: torta de morango na quinta-feira para adoçar o resto da jornada e sonho de creme na sexta-feira para anunciar os doces sonhos que viveria no final de semana.
     Não que ela não gostasse de ir para a escola, pelo contrário. Naquela época era o melhor lugar para uma criança... talvez o segundo melhor lugar para uma criança, já que ainda podia brincar na rua com suas amigas e amigos sem nenhuma preocupação com a segurança como ela tem hoje com sua única filha. Mas como segundo melhor lugar para uma criança, a escola a fascinava, principalmente durante o intervalo, que era o momento de brincar com suas amigas. Durante as aulas a professora reinava absoluta, mas o intervalo era dela e de suas amigas. Nada de celular, "tablets", computadores e esses jogos virtuais que sua filha tanto adora. O "tamagochi" surgiria muito tempo depois. Elas brincavam de verdade. Gostava sobretudo de brincadeiras como pular elástico e quatro cantos. Era emocionante trocar de lugar com a amiga antes que outra o ocupasse. Essas lembranças lhe vinham agora a mente, no momento exato em que, preparando-se para mais uma mudança, lhe caíra do armário, de dentro de uma caixa de lembranças, uma antiga foto da época da escola. Dia de foto era dia especial... cabelo arrumado, unhas cortadas, orelhas limpas... até perfume passava. 
     Todo mundo tinha uma foto como aquela: cenário azul com nuvens estampadas ao fundo, a bandeira do Brasil à direita e a do Estado de São Paulo à esquerda. Uma mesa imponente na qual apoiava os braços cruzados e na frente uma placa com o nome da escola e do aluno. Que saudades sentiu daquele tempo. Um tempo clichê que não voltaria mais. Estava saudosista. De repente, deu-lhe vontade de ligar para os antigos amigos, rememorá-los. Mas eles haviam ficado no passado, assim como a agenda onde anotara seus telefones. Sequer recordava o nome de todos. De alguns ainda se lembrava, mas de todos era impossível. Procuraria mais tarde, quando estivesse arrumando as coisas no novo apartamento, uma foto com todos os colegas no dia de sua formatura e mandaria emoldurá-la, assim jamais esqueceria novamente daquele passado feliz.
     O caminhão de mudança buzinou estrondosamente tirando-a de seu devaneio escolar, Colocou a foto sobre uma das muitas caixas que ocupavam o espaço e saiu. Ali a foto ficou, desbotada e esquecida assim como tudo o que ela havia acabado de recordar.