Para Ana Paula Sanches Leite
Ela era uma menininha nessa época. Não a mulher independente e orgulhosa de suas conquistas que viria a ser no futuro presente. Apenas uma garota e isso refletia toda a sua completude. Acordava bem cedo, por volta das seis horas da manhã. Cabelo desgrenhado e remelas nos olhos felizes por mais um dia abertos. Nunca acordava de mal humor. Isso só aconteceria anos depois, quando se tornasse adulta.
Enquanto tomava banho sua mãe preparava-lhe o café. A roupa já estava separada e colocada sobre a cama: a camiseta branca com o emblema da escola em vermelho, a calça preta de um tecido que ela não sabia o nome, mas que não era jeans nem moletom e os tênis também pretos de cadarços brancos. Anos mais tarde esses mesmos tênis viriam a ser considerados "cults"; naquela época eram apenas tênis de estudante.
O caminho até a escola era percorrido ao lado da mãe com uma parada obrigatória na padaria da Dona Benita, portuguesa minúscula e que naquela época já era velha. A vitrine de doces e bolos a fascinava como um pequeno rato fascina os olhos de uma víbora. Ela estava pronta para desferir um golpe mortal sobre os bolos e tortas que se anunciavam sem nenhum recato naquela vitrine de vidro. Diariamente repetia esse processo e sempre escolhia uma vítima diferente para não se cansar do mesmo gosto. Segunda-feira era dia de bolo de nozes, sua como todo início de semana deve ser; terça-feira era dia de quindim, seu doce favorito, assim como era dia da aula de artes, também sua favorita; quarta-feira exigia bolo de chocolate para aguentar firme até o final de semana que ainda demoraria a chegar, estava apenas na metade do caminho, ainda faltavam dois doces: torta de morango na quinta-feira para adoçar o resto da jornada e sonho de creme na sexta-feira para anunciar os doces sonhos que viveria no final de semana.
Não que ela não gostasse de ir para a escola, pelo contrário. Naquela época era o melhor lugar para uma criança... talvez o segundo melhor lugar para uma criança, já que ainda podia brincar na rua com suas amigas e amigos sem nenhuma preocupação com a segurança como ela tem hoje com sua única filha. Mas como segundo melhor lugar para uma criança, a escola a fascinava, principalmente durante o intervalo, que era o momento de brincar com suas amigas. Durante as aulas a professora reinava absoluta, mas o intervalo era dela e de suas amigas. Nada de celular, "tablets", computadores e esses jogos virtuais que sua filha tanto adora. O "tamagochi" surgiria muito tempo depois. Elas brincavam de verdade. Gostava sobretudo de brincadeiras como pular elástico e quatro cantos. Era emocionante trocar de lugar com a amiga antes que outra o ocupasse. Essas lembranças lhe vinham agora a mente, no momento exato em que, preparando-se para mais uma mudança, lhe caíra do armário, de dentro de uma caixa de lembranças, uma antiga foto da época da escola. Dia de foto era dia especial... cabelo arrumado, unhas cortadas, orelhas limpas... até perfume passava.
Todo mundo tinha uma foto como aquela: cenário azul com nuvens estampadas ao fundo, a bandeira do Brasil à direita e a do Estado de São Paulo à esquerda. Uma mesa imponente na qual apoiava os braços cruzados e na frente uma placa com o nome da escola e do aluno. Que saudades sentiu daquele tempo. Um tempo clichê que não voltaria mais. Estava saudosista. De repente, deu-lhe vontade de ligar para os antigos amigos, rememorá-los. Mas eles haviam ficado no passado, assim como a agenda onde anotara seus telefones. Sequer recordava o nome de todos. De alguns ainda se lembrava, mas de todos era impossível. Procuraria mais tarde, quando estivesse arrumando as coisas no novo apartamento, uma foto com todos os colegas no dia de sua formatura e mandaria emoldurá-la, assim jamais esqueceria novamente daquele passado feliz.
O caminhão de mudança buzinou estrondosamente tirando-a de seu devaneio escolar, Colocou a foto sobre uma das muitas caixas que ocupavam o espaço e saiu. Ali a foto ficou, desbotada e esquecida assim como tudo o que ela havia acabado de recordar.

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