Para Vitor Hugo
Ainda
estava cedo, mas ele não queria se atrasar. Tudo pronto dentro da mochila: uma
bandeira de seu país que vestiria sobre as costas, uma garrafa d’água,
panfletos de diversos tamanhos e um nariz vermelho, de palhaço. Um jeans
rasgado, uma camiseta camuflada, um botton com a face do Che Guevara no peito,
tênis sem marca furado. No rosto, uma barba proeminente; no estômago, o resto
de um lanche de mortadela.
Há
dias acompanhava o desenvolvimento da greve que ele defendia com unhas e dentes
através dos boletins do sindicato e do armário da cozinha. Quanto mais boletins
lia, mais o fundo branco do armário aparecida. Mas não desistiria de sua luta.
Por anos o partido do governo ignorou a educação em seu Estado e como professor
formador de opinião que era não poderia compactuar com os novos golpes contra o
giz e a lousa. Senhor de sua verdade, encontrava nos próprios colegas
acomodados senhores de outras verdades.
A
distância de sua casa até o local marcado para a concentração dos manifestantes
no coração financeiro do país era de dois ônibus, um trem e duas baldeações no
metrô. Isso só tornava sua luta mais revigorante. As conquistas valeriam todos
os esforços.
A
flâmula vibrava ao vento do planalto sob o vão livre do museu. Verde, amarelo,
azul, branco e vermelho, do nariz de palhaço. Trânsito parado. Câmeras ligadas.
Ele tinha a certeza de que não era apenas mais um na multidão, era a própria
multidão, única, uníssona...
O
suor no rosto e a confiança de ter alcançado o seu objetivo: seria ouvido pelo
governador, teria suas reivindicações atendidas. Chegou em casa cansado.
Tomaria um banho e sentaria no sofá para assistir aos noticiários. Será que
apareceria na TV? Pouco importava. Ele não era ele. Ele era todos e todos eram
ele. Cerveja na mão. Cueca samba-canção.
-
Cacete! – cuspiu a bebida na tela, na cara do âncora de terno cinza que narrava
enquanto mostravam cenas da passeata:
“Centenas
de professores interrompem tráfego em uma das principais avenidas da cidade
fazendo com que o trânsito que já é caótico ficasse ainda pior. Governo diz que
reivindicações são infundadas. Agora, vamos à meteorologia”.
-
Centenas? Éramos milhares. Esses jornalistas são cegos? Uma luta pacífica e
organizada pela melhoria da qualidade do ensino dessa merda de Estado vira uma
pedra no trânsito da cidade? À merda, não vejo mais isso...
Desligou
o aparelho e deu mais um trago na cerveja. Acendeu um cigarro e foi para a
pequena sacada de seu apartamento. Fumaça e pensamentos se misturavam sob a luz
de uma tímida lua crescente.
-
Corno! – jogou a lata pela sacada. Lá embaixo, no estacionamento, um alarme de
carro disparou. – Merda, merda, merda!
Naquela
noite não dormiu, assim como em muitas outras depois. Como era possível ser
ignorado pelo governo daquele jeito? Mas não era isso o que tirava o seu sono.
Como era possível ser ignorado pelos próprios colegas de profissão? Esse era o
motivo de sua insônia. Não compreendia como alguém era capaz de sentar-se a uma
mesa, abrir um livro e ministrar uma aula como se nada de errado houvesse ao
seu redor? Como essas pessoas que reclamavam dos alunos e do sistema e de tudo
o mais durante os intervalos podiam dormir tranquilas? O que era aquilo: eles
realmente sentiam-se incomodados ou apenas tinham se acostumar a ser infelizes
e reclamar?
Ele
também não estava feliz com o rumo que a greve estava tomando, mas tinha
chegado até ali: 30 dias de movimento. 30 dias de esperança. 30 dias de nariz
vermelho lutando por melhorias. Se suas reivindicações – suas e dos demais
grevistas – fossem atendidas, mesmo que em parte, sentiria ser um vencedor. Nem
o fato de suas conquistas serem compartilhadas com os professores que
continuaram na escola o incomodava. Esfregaria a vitória na cara deles de
qualquer jeito.
Na
sala dos professores, dias depois, sua presença se fez notar. Estava parado à
porta, observando.
-
Acabou a greve, professor? - riu um dos
antigos.
-
O que você ganhou? Um zero como os que damos para nossos alunos? – continuaram a
rir.
-
“Volta o cão arrependido com o rabo entre as pernas...” – mais gargalhadas.
“Quanta
infantilidade! Por acaso acham que o fato de termos paralisado a greve
significa que estamos derrotados? Que besteira! Nem sempre é possível ganhar
uma luta, mas o importante é o que se ganha com a luta. O que ganhei? A certeza
de que não sou mais um acomodado com o sistema sentado ‘com a boca escancarada
cheia de dentes esperando a espera da morte chegar’. Eita Raul, que não deixa
os meus pensamentos!” Tudo isso passou em sua cabeça antes de responder,
simplesmente:
-
O que ganhei? A certeza de que nunca serei você!
O
sinal tocou. Ele deu meia volta e dirigiu-se para a sua sala de aula. No bolso, o nariz vermelho que outrora representou sua indignação agora enfeitava mentalmente o rosto de seus colegas.
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