Para Soraia Jarouche
O batuque começava antes mesmo de o sol se pôr. Aos poucos a turma ia se achegando ao quintal de Dona Selma, que desde cedo tinha começado a arrumar o espaço para receber os amigos que vinham de vários lugares da cidade. A feijoada e o pagode de Dona Selma eram famosos, mas não eram para qualquer um, afinal, sua casa era uma casa de respeito e ali só entravam os seus amigos mais chegados e os amigos de seus amigos, que logo se tornavam íntimos da rechonchuda senhora e eram convidados a voltar nas semanas seguintes. Mas se ela não fosse com a fuça do cabra, era melhor nem passar mais diante de seu portão.
Toda quarta-feira o grupo se reunia, pouco importava se o dia seguinte era de labuta, a festa ia até de madrugada. Uma tábua era colocada sobre dois botijões de gás vazios, outra sobre duas latas de tinta, assim todos tinham onde se sentar para apreciar o banquete que seria servido. Lugar, comida e música boa não faltariam. Nem a cachaça, mas essa era especial: nada de pinga comprada em supermercado, a de Dona Selma vinha direto do alambique de Tonho Cachaça, figura folclórica da comunidade de Santa Rita e violeiro respeitado, que possuía um sítio em Minas Gerais. Era de lá que vinha a reluzente bebia que fazia a alegria dos convivas das feijoadas de Tia Selma, como ele a chamava.
Seu Tonho Cachaça era frequentador assíduo e tinha cadeira cativa: sentava-se na mesa de Tia Selma, numa cadeira à sua esquerda. Nem marido, nem filho ou parentes de Tia Selma podiam sentar-se ali. Só se levantava para tanger as cordas de seu violão junto à rapaziada que se aquietava para ouvir seus Lupicínios, Noéis e Cartolas. Se por algum acaso do destino, seu Tonho faltava à feijoada, o seu lugar permanecia vago, em respeito à sua pessoa. Mas isso havia acontecido raras vezes desde que o pagode de Tia Selma tinha começado alguns anos atrás. Uma vez ele esteve internado e só não compareceu porque foi detido na porta do hospital pelo segurança enquanto tentava fugir; outra vez foi no dia do nascimento de sua filha, Clotilde, como sua mãe. A esposa queria Gabriela, como a da novela e do livro do escritor baiano que ela esquecera o nome e cujo romance nunca lera, mas como quem registra é o pai, no cartório Seu Tonho Cachaça fez prevalecer sua vontade. Nem no dia da morte de sua sogra ele faltou ao pagode de Tia Selma. Deixou todos velando o defunto e foi para o terreiro beber a velha.
O pagode ia alto e a cachaça baixando no garrafão. Seu Tonho, vermelho, fazendo jus ao apelido. De repente, um moleque atravessou correndo o terreiro em sua direção.
- Seu Tonho, se aprume que tua mulher tá vindo aí!
Ele mal teve tempo de colocar a camisa para dentro da calça quando a mulher de Seu Tonho Cachaça rompeu quintal adentro.
- Eu sabia que ia te encontrar aqui. Nós tudo chorando minha mãe lá em casa e você enchendo a cara? - Naquela época velava-se defunto em casa, em cima da mesa da sala.
- Enchendo a cara, não! Tô aqui homenageando a tua mãe, minha querida sogra, agora mais querida que nunca.
- Tu não tem vergonha mesmo, hein?! - disse isso e virou a cara, ameaçando sair.
- Não reclama, não, que a velha era chegada numa dose da boa. Deve até de estar feliz com a homenagem que eu tô fazendo. - pegou um copo e virou de uma só vez como deve ser feito. - Essa é pra mim! - pegou outro copo e virou novamente - Esse é pra velha! - Só depois foi para o velório da sogra carregando o violão como se fosse parte de seu próprio corpo. Tia Selma ria a não caber-se em si.
"Galo cantou às quatro da manhã..." e já passava das quatro quando Seu Tonho Cachaça levantou-se e foi embora. Meio tonteado, costurando a rua com o ziguezague de suas pernas.
- Cumpadre, quer companhia até em casa? Posso mandar um dos meninos contigo... - perguntou Tia Selma, vendo o estado em que o amigo se encontrava.
- Preciso de pajem, não. Seu Zé tá comigo.
Tia Selma riu e desejou boa ida ao Seu Tonho. Pouco depois das sete da manhã, foi Clotilde quem entrou em seu quintal.
- Deus te abençõe, menina. Seu pai esqueceu alguma coisa?
- Deve ter esquecido é o caminho de casa, porque até agora não chegou lá!
Na semana seguinte, a cuíca silenciou, o bumbo não tocou e o cavaquinho não chorou. A feijoada estava pronta e os amigos esvaziavam os pratos. Tia Selma estava sentada no seu lugar de costume e à sua esquerda, a Cachaça e o violão, mas não Seu Tonho.
"Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim..." Nos pagodes de Tia Selma agora há um violão em um canto onde não canta ninguém.

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