Para Cíntia Oliveira
Desde
pequeno ele sempre fora diferente dos demais de sua turma. Não gostava de jogar
bola, tampouco aprendera a empinar pipa ou jogar pião ou bolinha de gude ou
qualquer outra brincadeira típica dos garotos de sua idade.
Ainda
na pré-escola sua diversão eram os livros de colorir e as dobraduras. Era um
aficionado por origamis. E gostava de cores, não apenas do verde e do azul –
cores de menino; mas do rosa e do lilás – cores proibidas. Achava o preto e o
branco monótonos. Relacionava-se melhor com as meninas e não via nisso problema
algum, como um dia viu sua professora e que, comentando o fato com a mãe do
menino, aconselhou-a a procurar um psicólogo.
-
Problemas assim devem ser tratados desde pequeno – disse a professora. Mas o
que a mãe ouviu do psicólogo foi que não havia nada de errado com o garoto, que
ela o deixasse crescer e desenvolver sua personalidade sem barreiras
preconceituosas e forjadas a antigos conceitos de certo e errado e que nenhum
dos comportamentos apresentados afetaria o caráter do garoto que até então se
mostrou extremamente educado e feliz com sua realidade. A mãe achou o psicólogo
um tanto quanto afeminado e não voltou mais ao seu consultório.
Estaria
fadada a ter um filho assim, diferente dos demais? A resposta viria com o
tempo. O garoto apresentou problemas de relacionamento na escola. Ora porque
não queria participar das aulas de educação física, ora por seu uniforme estar
sempre impecável, diferente dos outros que andavam parecendo terem saído da 3ª
Guerra Mundial. A camiseta do uniforme por dentro do shorts e as meias brancas
esticadas até o meio da canela. O cabelo sempre penteado e arrumado. A mãe até
que tentou mudar essa postura do filho, deixando de lavar a camiseta da escola,
mas, nem assim conseguiu. Apesar do calor, o filho colocou um pulôver sobre a
camiseta suja e foi, todo arrumado, para a escola. O pai ausentava-se de
comentários, apenas a mãe afligia-se com o comportamento do filho. O garoto
guardava selos de cartas recebidas de parentes do interior em uma pasta,
organizando-os por valor e data.
A
madrinha confabulava com a mãe e as tias do menino. Talvez lhe faltasse um
exemplo, já que o pai era um zero à esquerda. Os primos poderiam lhe ser úteis.
Mas enquanto eles brincavam de guerrinha de bolinhas de barro, o garoto ficava
trepado na mangueira do quintal observando o pôr do sol. Não havia jeito. Ele
era diferente e a família teria que aprender a lidar com essa situação.
-
É apenas uma fase! – dizia para a mãe o padre da paróquia enquanto tomava chá e
comia bolinhos de chuva feitos especialmente para ele. A mãe precisa de alguma
orientação, já que o psicólogo... bem... melhor deixar para lá. – A senhora
verá que não tem com o que se afligir. Até a adolescência tudo muda, a senhora
verá. Eu mesmo era assim quando criança. – A mãe não sentiu-se mais confortada
com os conselhos do padre.
A
adolescência chegou e nada se alterou. Pelo contrário, a situação agravou-se
ainda mais. Enquanto os colegas iam a bailinhos de garagem em busca de perder a
virgindade – da boca que fosse – ele lia romances e colecionava livros antigos;
seus amigos, Playboys. O computador
já era uma realidade, mas ele mantinha-se fiel à velha máquina de escrever e à
caneta bico de pena que ganhou de seu avô. Aliás, era do avô os seus maiores
tesouros: fotos antigas da família ainda na Itália e filmes caseiros que
assistia em seu projetor; a certidão de imigrante e um velho canivete, que
segundo o próprio avô lhe contara, havia sido usado para cortar o cordão
umbilical de sua mãe e de seus tios em uma época em que ter filho em hospital
era luxo.
Até
tentou uma mudança de comportamento: foi a baladas com os amigos do trabalho,
encontrou-se com algumas garotas e tirou diversas selfies. Mas nada disso adiantou. Também nunca namorou. As meninas
se afastavam após o primeiro encontro ao perceber que havia algo de estranho
com aquele rapaz. Cultivou bigodes como os escritores românticos e, volta e
meia, deixava-se embebedar sozinho em casa sentado em uma poltrona ao lado de
sua vitrola.
Nunca
baixou músicas da internet nem comprou cds piratas. Era amante do bom e velho
vinil, que comprava nas galerias do centro da cidade e em redutos escusos da
Mooca. Filmes, somente no cinema ou no seu projetor em casa. Tinha uma sala
especial somente para isso: latas de filmes e pilhas de vinil. Alguns raros,
filmes e vinis.
Sua
mãe, já idosa e conhecedora do estilo de vida do filho tentava a muito custo conseguir
demovê-lo disso que ela chamava de fase e que durava quase 35 anos. O pai
continuava omisso.
-
Se é isso que ele quer, o que se há de fazer? – respondia sempre que instigado
a tomar providências.
-
Se até eu que já tenho mais de 60 anos mando e-mails e publico receitas no meu
blog, por que ele ainda manda cartas e escreve diários? Por que nosso filho se
comporta como uma velha?
Até
o dia de sua morte, ela não conseguiu aceitar o fato de seu filho ser diferente
dos demais. Ela nunca aceitou ter um filho velha.
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