sábado, 18 de julho de 2015

O que esse garoto tem?

Para Cíntia Oliveira

                Desde pequeno ele sempre fora diferente dos demais de sua turma. Não gostava de jogar bola, tampouco aprendera a empinar pipa ou jogar pião ou bolinha de gude ou qualquer outra brincadeira típica dos garotos de sua idade.
                Ainda na pré-escola sua diversão eram os livros de colorir e as dobraduras. Era um aficionado por origamis. E gostava de cores, não apenas do verde e do azul – cores de menino; mas do rosa e do lilás – cores proibidas. Achava o preto e o branco monótonos. Relacionava-se melhor com as meninas e não via nisso problema algum, como um dia viu sua professora e que, comentando o fato com a mãe do menino, aconselhou-a a procurar um psicólogo.
                - Problemas assim devem ser tratados desde pequeno – disse a professora. Mas o que a mãe ouviu do psicólogo foi que não havia nada de errado com o garoto, que ela o deixasse crescer e desenvolver sua personalidade sem barreiras preconceituosas e forjadas a antigos conceitos de certo e errado e que nenhum dos comportamentos apresentados afetaria o caráter do garoto que até então se mostrou extremamente educado e feliz com sua realidade. A mãe achou o psicólogo um tanto quanto afeminado e não voltou mais ao seu consultório.
                Estaria fadada a ter um filho assim, diferente dos demais? A resposta viria com o tempo. O garoto apresentou problemas de relacionamento na escola. Ora porque não queria participar das aulas de educação física, ora por seu uniforme estar sempre impecável, diferente dos outros que andavam parecendo terem saído da 3ª Guerra Mundial. A camiseta do uniforme por dentro do shorts e as meias brancas esticadas até o meio da canela. O cabelo sempre penteado e arrumado. A mãe até que tentou mudar essa postura do filho, deixando de lavar a camiseta da escola, mas, nem assim conseguiu. Apesar do calor, o filho colocou um pulôver sobre a camiseta suja e foi, todo arrumado, para a escola. O pai ausentava-se de comentários, apenas a mãe afligia-se com o comportamento do filho. O garoto guardava selos de cartas recebidas de parentes do interior em uma pasta, organizando-os por valor e data.
                A madrinha confabulava com a mãe e as tias do menino. Talvez lhe faltasse um exemplo, já que o pai era um zero à esquerda. Os primos poderiam lhe ser úteis. Mas enquanto eles brincavam de guerrinha de bolinhas de barro, o garoto ficava trepado na mangueira do quintal observando o pôr do sol. Não havia jeito. Ele era diferente e a família teria que aprender a lidar com essa situação.
                - É apenas uma fase! – dizia para a mãe o padre da paróquia enquanto tomava chá e comia bolinhos de chuva feitos especialmente para ele. A mãe precisa de alguma orientação, já que o psicólogo... bem... melhor deixar para lá. – A senhora verá que não tem com o que se afligir. Até a adolescência tudo muda, a senhora verá. Eu mesmo era assim quando criança. – A mãe não sentiu-se mais confortada com os conselhos do padre.
                A adolescência chegou e nada se alterou. Pelo contrário, a situação agravou-se ainda mais. Enquanto os colegas iam a bailinhos de garagem em busca de perder a virgindade – da boca que fosse – ele lia romances e colecionava livros antigos; seus amigos, Playboys. O computador já era uma realidade, mas ele mantinha-se fiel à velha máquina de escrever e à caneta bico de pena que ganhou de seu avô. Aliás, era do avô os seus maiores tesouros: fotos antigas da família ainda na Itália e filmes caseiros que assistia em seu projetor; a certidão de imigrante e um velho canivete, que segundo o próprio avô lhe contara, havia sido usado para cortar o cordão umbilical de sua mãe e de seus tios em uma época em que ter filho em hospital era luxo.
                Até tentou uma mudança de comportamento: foi a baladas com os amigos do trabalho, encontrou-se com algumas garotas e tirou diversas selfies. Mas nada disso adiantou. Também nunca namorou. As meninas se afastavam após o primeiro encontro ao perceber que havia algo de estranho com aquele rapaz. Cultivou bigodes como os escritores românticos e, volta e meia, deixava-se embebedar sozinho em casa sentado em uma poltrona ao lado de sua vitrola.
                Nunca baixou músicas da internet nem comprou cds piratas. Era amante do bom e velho vinil, que comprava nas galerias do centro da cidade e em redutos escusos da Mooca. Filmes, somente no cinema ou no seu projetor em casa. Tinha uma sala especial somente para isso: latas de filmes e pilhas de vinil. Alguns raros, filmes e vinis.
                Sua mãe, já idosa e conhecedora do estilo de vida do filho tentava a muito custo conseguir demovê-lo disso que ela chamava de fase e que durava quase 35 anos. O pai continuava omisso.
                - Se é isso que ele quer, o que se há de fazer? – respondia sempre que instigado a tomar providências.
                - Se até eu que já tenho mais de 60 anos mando e-mails e publico receitas no meu blog, por que ele ainda manda cartas e escreve diários? Por que nosso filho se comporta como uma velha?
                Até o dia de sua morte, ela não conseguiu aceitar o fato de seu filho ser diferente dos demais. Ela nunca aceitou ter um filho velha.

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