Para Marili Alexandre
A
menina que queria ser flor
Todo
dia era ela quem acordava o Sol. O astro-rei somente saía de sua casa após a
garota dar-lhe “Bom Dia”. Quando acontecia de ela estar triste ou doente e
permanecer na cama por mais tempo que o costumeiro, nesses dias, por tristeza
ou por sentir-se injuriado, o Sol não aparecia, ficava escondido por detrás das
nuvens. Seu choro era ouvido através dos raios e trovões e suas lágrimas
inundavam a terra levantando um doce cheiro de saudade. Mas bastava que a
janela da menina se abrisse para que o Amarelo pintasse imediatamente o dia de
azul.
Rosas,
cravos e margaridas. Às vezes girassóis, mas nunca crisântemos. Crisântemos é a
flor dos mortos e a vontade da moça sempre foi a de alegrar os vivos com suas
flores. Na entrada da feira local ou pelas ruas do bairro a carregar um cesto
com suas flores, ela distribuía romance, carinho, paixão... Realizava o sonho
de jovens moças que esperavam ansiosas por um buquê de flores em suas portas no
dia seguinte, salvava jovens maridos – e os nem tão jovens assim – de algum
esquecimento. Muitos aniversários e comemorações foram mais felizes por sua
causa.
Retornava
para casa já tarde, acompanhada de seu amigo. Antes de despedir-se,
ofertava-lhe um delicado cravo, nunca uma rosa, que á flor da paixão e não fica
bem para uma moça dar-se ao desfrute de oferecer-se em flor a um rapaz. Amizade
era uma coisa, amor... isso era para casamento. Mas o cravo, esse sim demonstra
todo o respeito com que um moço de boa família deve ser tratado. A flor era deixada
no gramado ao lado da porta de entrada da casa da menina. Ela entrava sem olhar
para trás e o Sol despedia-se morosamente, derretendo-se por detrás das
montanhas. A Lua, apaixonada que era pelo Sol, mulher muito dengosa e vaidosa,
enchia-se de raiva com esses galanteios. Não compreendia por que o Sol abria-se
todo por causa de uma simples flor, enquanto ela que lhe oferecia o brilho de
todas as estrelas do universo não dispunha de sua presença. Raramente se
encontravam. Acontecia esporadicamente de a Lua permanecer por mais tempo no
céu e tocar rapidamente nos raios do Sol, mas ele, com olhos apenas para a
menina, fingia não notar seu atrevimento.
Se
a Lua soubesse o quanto a menina também a adorava talvez sentisse menos ciúmes.
Pode ser que ela até desconfiasse disso, pois em certos dias era possível vê-la
sorrindo enquanto a menina sonhava. E sonhar era o que a garota mais gostava de
fazer. Sonhava com coisas de que gostava: de pisar na areia molhada da praia e
pegar conchinhas trazidas pelas ondas; de subir bem alto no morro e olhar até
enxergar o perder de vista e algodão doce. Adorava sonhar com algodão doce.
Ficava imaginando como alguém conseguia ir até o céu para pegar as nuvens e
enrolá-las em palitinhos para serem vendidos na feira. Devia ser para isso que
serviam as aeronaves. Já ouvira dizer que elas levavam as pessoas pelo ar, mas
não acreditava muito nisso. Para ela, os aviões eram imensas colheitadeiras de
nuvens para fazer algodão doce. Já havia sonhado que era piloto de uma dessas
máquinas e que trabalhava em uma fazenda de algodão doce no céu. Ela sonhava
que era um monte de coisas, mas que era sempre ela, nunca o outro, porque
sonhar em ser o outro é negar sua própria existência. E ela adorava existir.
Tinha
um sonho que ela gostava mais do que dos outros: sonhar que era flor. Ser flor
não é ser gente, então não há problemas em sonhá-lo. Tinha noites em que
sonhava que era rosa, uma rosa solitária e vermelha deixada na porta de uma
feliz garota. A campainha tocada e de longe um rapaz, escondido atrás de uma
velha árvore a via ser pega e tocada delicadamente pelo espanto e pelo calor da
amada. O olhar da moça procurava ao redor e depois as duas entravam em casa.
Ela seria guardada entre as páginas de um livro de poesias e traria, num futuro
longínquo, doces lembranças para as doces rugas da então senhora; outrora era
um cravo ofertado a um pai com todo o respeito e admiração que os pais merecem.
Já sonhou ser uma vidente margarida bem-me-quer mal-que-quer na angústia de uma
adolescente ou um girassol retratado em um famoso quadro que vira retratado em
uma revista há algum tempo. Nunca sonhou ser crisântemo, que é flor de mau
agouro.
Durante
aquela noite um mal estar súbito a consumiu em calores e água. Por dias o Sol
não apareceu, apenas suas lágrimas caindo sem parar do céu. De noite, a Lua ria
o sorriso do gato de Alice. Um sorriso branco para uma noite preta. A Lua
acreditava ter chegado a sua vez de ser feliz, mas o Sol... nunca estivera tão
triste.
Quando
finalmente acordou, dias e dias depois, não mais chovia, mas o chão estava
úmido. O quarto estava escuro e algo estranho acontecia: seus braços e pernas
estavam compridos espalhando ramas pelo chão; seu coração em flor era rosa
desabrochada; seus cabelos, um buquê de margaridas e seus belos olhos haviam se
tornado dois grandes cravos. Tinha apenas um desagrado: o lençol de crisântemos
que a envolvia.
