terça-feira, 30 de junho de 2015

Nariz vermelho

Para Vitor Hugo

                Ainda estava cedo, mas ele não queria se atrasar. Tudo pronto dentro da mochila: uma bandeira de seu país que vestiria sobre as costas, uma garrafa d’água, panfletos de diversos tamanhos e um nariz vermelho, de palhaço. Um jeans rasgado, uma camiseta camuflada, um botton com a face do Che Guevara no peito, tênis sem marca furado. No rosto, uma barba proeminente; no estômago, o resto de um lanche de mortadela.
                Há dias acompanhava o desenvolvimento da greve que ele defendia com unhas e dentes através dos boletins do sindicato e do armário da cozinha. Quanto mais boletins lia, mais o fundo branco do armário aparecida. Mas não desistiria de sua luta. Por anos o partido do governo ignorou a educação em seu Estado e como professor formador de opinião que era não poderia compactuar com os novos golpes contra o giz e a lousa. Senhor de sua verdade, encontrava nos próprios colegas acomodados senhores de outras verdades.
                A distância de sua casa até o local marcado para a concentração dos manifestantes no coração financeiro do país era de dois ônibus, um trem e duas baldeações no metrô. Isso só tornava sua luta mais revigorante. As conquistas valeriam todos os esforços.
                A flâmula vibrava ao vento do planalto sob o vão livre do museu. Verde, amarelo, azul, branco e vermelho, do nariz de palhaço. Trânsito parado. Câmeras ligadas. Ele tinha a certeza de que não era apenas mais um na multidão, era a própria multidão, única, uníssona...
                O suor no rosto e a confiança de ter alcançado o seu objetivo: seria ouvido pelo governador, teria suas reivindicações atendidas. Chegou em casa cansado. Tomaria um banho e sentaria no sofá para assistir aos noticiários. Será que apareceria na TV? Pouco importava. Ele não era ele. Ele era todos e todos eram ele. Cerveja na mão. Cueca samba-canção.
                - Cacete! – cuspiu a bebida na tela, na cara do âncora de terno cinza que narrava enquanto mostravam cenas da passeata:
                “Centenas de professores interrompem tráfego em uma das principais avenidas da cidade fazendo com que o trânsito que já é caótico ficasse ainda pior. Governo diz que reivindicações são infundadas. Agora, vamos à meteorologia”.
                - Centenas? Éramos milhares. Esses jornalistas são cegos? Uma luta pacífica e organizada pela melhoria da qualidade do ensino dessa merda de Estado vira uma pedra no trânsito da cidade? À merda, não vejo mais isso...
                Desligou o aparelho e deu mais um trago na cerveja. Acendeu um cigarro e foi para a pequena sacada de seu apartamento. Fumaça e pensamentos se misturavam sob a luz de uma tímida lua crescente.
                - Corno! – jogou a lata pela sacada. Lá embaixo, no estacionamento, um alarme de carro disparou. – Merda, merda, merda!
                Naquela noite não dormiu, assim como em muitas outras depois. Como era possível ser ignorado pelo governo daquele jeito? Mas não era isso o que tirava o seu sono. Como era possível ser ignorado pelos próprios colegas de profissão? Esse era o motivo de sua insônia. Não compreendia como alguém era capaz de sentar-se a uma mesa, abrir um livro e ministrar uma aula como se nada de errado houvesse ao seu redor? Como essas pessoas que reclamavam dos alunos e do sistema e de tudo o mais durante os intervalos podiam dormir tranquilas? O que era aquilo: eles realmente sentiam-se incomodados ou apenas tinham se acostumar a ser infelizes e reclamar?
                Ele também não estava feliz com o rumo que a greve estava tomando, mas tinha chegado até ali: 30 dias de movimento. 30 dias de esperança. 30 dias de nariz vermelho lutando por melhorias. Se suas reivindicações – suas e dos demais grevistas – fossem atendidas, mesmo que em parte, sentiria ser um vencedor. Nem o fato de suas conquistas serem compartilhadas com os professores que continuaram na escola o incomodava. Esfregaria a vitória na cara deles de qualquer jeito.
                Na sala dos professores, dias depois, sua presença se fez notar. Estava parado à porta, observando.
                - Acabou a greve, professor? -  riu um dos antigos.
                - O que você ganhou? Um zero como os que damos para nossos alunos? – continuaram a rir.
                - “Volta o cão arrependido com o rabo entre as pernas...” – mais gargalhadas.
                “Quanta infantilidade! Por acaso acham que o fato de termos paralisado a greve significa que estamos derrotados? Que besteira! Nem sempre é possível ganhar uma luta, mas o importante é o que se ganha com a luta. O que ganhei? A certeza de que não sou mais um acomodado com o sistema sentado ‘com a boca escancarada cheia de dentes esperando a espera da morte chegar’. Eita Raul, que não deixa os meus pensamentos!” Tudo isso passou em sua cabeça antes de responder, simplesmente:
                - O que ganhei? A certeza de que nunca serei você!

                O sinal tocou. Ele deu meia volta e dirigiu-se para a sua sala de aula. No bolso, o nariz vermelho que outrora representou sua indignação agora enfeitava mentalmente o rosto de seus colegas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quatro Cantos

   Para Ana Paula Sanches Leite

     Ela era uma menininha nessa época. Não a mulher independente e orgulhosa de suas conquistas que viria a ser no futuro presente. Apenas uma garota e isso refletia toda a sua completude. Acordava bem cedo, por volta das seis horas da manhã. Cabelo desgrenhado e remelas nos olhos felizes por mais um dia abertos. Nunca acordava de mal humor. Isso só aconteceria anos depois, quando se tornasse adulta.
     Enquanto tomava banho sua mãe preparava-lhe o café. A roupa já estava separada e colocada sobre a cama: a camiseta branca com o emblema da escola em vermelho, a calça preta de um tecido que ela não sabia o nome, mas que não era jeans nem moletom e os tênis também pretos de cadarços brancos. Anos mais tarde esses mesmos tênis viriam a ser considerados "cults"; naquela época eram apenas tênis de estudante.
     O caminho até a escola era percorrido ao lado da mãe com uma parada obrigatória na padaria da Dona Benita, portuguesa minúscula e que naquela época já era velha. A vitrine de doces e bolos a fascinava como um pequeno rato fascina os olhos de uma víbora. Ela estava pronta para desferir um golpe mortal sobre os bolos e tortas que se anunciavam sem nenhum recato naquela vitrine de vidro. Diariamente repetia esse processo e sempre escolhia uma vítima diferente para não se cansar do mesmo gosto. Segunda-feira era dia de bolo de nozes, sua como todo início de semana deve ser; terça-feira era dia de quindim, seu doce favorito, assim como era dia da aula de artes, também sua favorita; quarta-feira exigia bolo de chocolate para aguentar firme até o final de semana que ainda demoraria a chegar, estava apenas na metade do caminho, ainda faltavam dois doces: torta de morango na quinta-feira para adoçar o resto da jornada e sonho de creme na sexta-feira para anunciar os doces sonhos que viveria no final de semana.
     Não que ela não gostasse de ir para a escola, pelo contrário. Naquela época era o melhor lugar para uma criança... talvez o segundo melhor lugar para uma criança, já que ainda podia brincar na rua com suas amigas e amigos sem nenhuma preocupação com a segurança como ela tem hoje com sua única filha. Mas como segundo melhor lugar para uma criança, a escola a fascinava, principalmente durante o intervalo, que era o momento de brincar com suas amigas. Durante as aulas a professora reinava absoluta, mas o intervalo era dela e de suas amigas. Nada de celular, "tablets", computadores e esses jogos virtuais que sua filha tanto adora. O "tamagochi" surgiria muito tempo depois. Elas brincavam de verdade. Gostava sobretudo de brincadeiras como pular elástico e quatro cantos. Era emocionante trocar de lugar com a amiga antes que outra o ocupasse. Essas lembranças lhe vinham agora a mente, no momento exato em que, preparando-se para mais uma mudança, lhe caíra do armário, de dentro de uma caixa de lembranças, uma antiga foto da época da escola. Dia de foto era dia especial... cabelo arrumado, unhas cortadas, orelhas limpas... até perfume passava. 
     Todo mundo tinha uma foto como aquela: cenário azul com nuvens estampadas ao fundo, a bandeira do Brasil à direita e a do Estado de São Paulo à esquerda. Uma mesa imponente na qual apoiava os braços cruzados e na frente uma placa com o nome da escola e do aluno. Que saudades sentiu daquele tempo. Um tempo clichê que não voltaria mais. Estava saudosista. De repente, deu-lhe vontade de ligar para os antigos amigos, rememorá-los. Mas eles haviam ficado no passado, assim como a agenda onde anotara seus telefones. Sequer recordava o nome de todos. De alguns ainda se lembrava, mas de todos era impossível. Procuraria mais tarde, quando estivesse arrumando as coisas no novo apartamento, uma foto com todos os colegas no dia de sua formatura e mandaria emoldurá-la, assim jamais esqueceria novamente daquele passado feliz.
     O caminhão de mudança buzinou estrondosamente tirando-a de seu devaneio escolar, Colocou a foto sobre uma das muitas caixas que ocupavam o espaço e saiu. Ali a foto ficou, desbotada e esquecida assim como tudo o que ela havia acabado de recordar.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Tec Tec Ponto
                                               Para Sabrina Paixão

Essa história começa com reticências pelo simples fato de ser desconhecido o que havia antes desses primeiros “tecs” da máquina de escrever. Tudo o que sabemos é que ele agora está sentado em sua escrivaninha, máquina à frente de seu corpo, dedos sobre as teclas como aprendera no cursinho de datilografia que fez quando ainda estava no Ginásio;  cesto ao lado, papéis amassados e jogados no chão de madeira cuja cor quase não se via. Um gato preto e gordo dormia sobre Machado, Eça e Pessoa jogados no chão. Não conseguira inspirar-se com os olhos de ressaca de Capitu, nem com o amor eterno e impossível, tampouco com tudo valer a pena se a alma não for pequena. Nada. Esperou tanto por esse momento e agora que o tinha nas mãos... nada.
ASDF ÇLKJ ASDF ÇLKJ ASDF ÇLKJJJJJJJJJJJJJFDSJDGHJFDSGASJGREOIUOIHRHI MJTWG. Confusão mental. Estresse. Uma nuvem branca em sua mente, uma nuvem verde em sua sacada. Observava os carros 18 andares abaixo. A lua, entre nuvens, milhares de andares acima. Pensou em todos os anos que havia dedicado ao magistério e agora, somente agora, o reconhecimento: Paraninfo de turma. Já mandara para o tintureiro o antigo terno preto solene e a camisa branca respeitável. Pessoas de branco são sempre respeitáveis. É impossível ofender uma pessoa que esteja toda vestida de branco. A gravata, letras ametista. Sapatos negros de dar inveja a qualquer soldado lustrador. Mas as meias... essas seriam vermelhas... toda a formalidade imposta pela solenidade seria contrariada pelas meias vermelhas. Seria um contraventor, afinal.
Lembrava-se, diante da página em branco, de sua professora da 1ª série que há muitos anos havia lhe ensinado a escrever em uma página em branco com pautas a serem preenchidas pela caligrafia garranchosa que o acompanharia pelo resto de sua vida. Páginas em branco sempre o fascinaram. Colecionava cadernos pelo simples fato de olhar as páginas em branco esperando pela carícia esferográfica de uma caneta. Mas ele não escrevia à mão. Tinha letra garranchosa. Falaria sobre isso em seu discurso? Bobagem. O momento exigia reflexões profundas acerca do futuro da nação e da modernização que assola o planeta e que muito em breve deixará milhões sem emprego sendo substituídos por robôs. Sim, falaria sobre o futuro. Mão levantada. Primeiro toque a ser desferido. Mas como falar de futuro se ele mesmo não tinha certeza de sua existência? O futuro é o hoje que nunca vai chegar. Na verdade somos sempre passado e presente. O futuro só existe nas conjugações verbais. Mãos sobre a mesa.
“A vida é um papel em branco que como este vai ganhando continuamente significado através das nossas ações, dos ‘tecs’ da máquina de escrever, do rolar do bolígrafo que o mancha com sua tinta azul, às vezes vermelha. Ver o papel em branco é fascinante. É um mundo de possibilidades que se abre, mas apenas imaginar não é o suficiente, é preciso fazer. Vislumbrar o futuro é besteira, trazê-lo para o presente é que é bacana. Imaginem, mas façam. Peguem o papel em branco e risquem, rabisquem, só não apaguem. O papel aceita a borracha, o corretivo... a vida, não. Por mais que tentamos apagar, os erros estarão lá. Mas errar é bacana também... Quem nunca errou que passe o primeiro ‘liquid paper’! Quem dera a vida fosse feita de várias páginas em branco que pudessem ser descartadas e substituídas. Mas, não é! Por isso, pensem no que vocês vão escrever em suas páginas, na tinta que usarão, na tipologia... enfim, páginas com muitos ‘tecs’ para todos vocês! Obrigado”.

No fim, não era um contestador, era somente ele.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Abrindo os trabalhos...

     A ideia que me surge de repente para esse novo blog é, acima de tudo, escrever... mas não apenas escrever o que me vem à cabeça sorrateiramente. Escrever o que o leitor quer que eu escreva. O que eu quero é desenvolver uma espécie de coautoria: você me dá o tema e eu te dou o texto.
     Para isso eu vou semanalmente publicar um novo texto. No final serão 30 contos inéditos escritos a partir das sugestões dos leitores. Espero que esse projeto tenha sucesso, para isso preciso que colegas, parentes, alunos, enfim, todos que quiserem, me ajudem... me mandem um tema, qualquer um e vamos ver no que eu consigo transformá-los.Você pode deixá-lo aqui no comments ou no facebook... Eu e minha velha máquina de escrever estamos esperando.

Abraços e boa sorte para nós!

Teder Sacoman