terça-feira, 18 de agosto de 2015

Keluz

Para Greg

     Todo dia ele saía sempre no mesmo horário. Era um homem regrado. O mínimo distúrbio em sua rotina fazia com que seu ânimo se alterasse. Enquanto a água para o café fervia, ele tomava banho. Cinco minutos cronometrados. A água em fogo baixo. O chuveiro na indicação "verão", para economizar. Tomava a primeira xícara antes de se trocar, usando seu roupão felpudo, azul e chinelos macios, também azuis. O café descia amargo e forte. O roupão caía suavemente. Calça, camisa e gravata. Meias e sapatos pretos. Sempre social. Não havia necessidade. A empresa não lhe impunha o traje, mas ele se sentia confortável e confiante desta forma.
     O guarda-chuva sempre a tiracolo. Não sabia quando seria necessário, afinal, nesta cidade o tempo é imprevisível. Não confiava em meteorologia e odiava as pessoas que liam horóscopo, mas fazia cruzadinhas e caça-palavras. Sentava-se à frente de seu computador - aparelho de tortura imposto pela revolução tecnológica a que as empresas estavam submetidas - e preenchia laudas e laudas com as crônicas que sairiam na edição do dia seguinte.
     Era escritor por vocação, jornalista por necessidade, afinal, os parcos volumes vendidos para estranhos no dia do lançamento de seu primeiro romance e o pouco que entrou depois, mal lhe garantiram um bom fim de semana em Ilhabela. E ele que pensara em viajar o mundo recolhendo histórias e colecionando tipos para seus livros... o mais perto que chegou da Europa foi através dos postais que seus amigos - simples jornalistas policiais e colunistas sociais - enviavam-lhe de suas férias. Era romântico por natureza e amargo por insuficiência de saldo.
     Suas crônicas até que lhe renderam alguma fama. Vez ou outra recebia e-mails com elogios, mas isso não o entusiasmava. Queria ser um escritor reconhecido. Se não houvesse o reconhecimento, poderia ao menos ter o dinheiro. Reclamava do café da redação e do contínuo que sempre deixava a correspondência jogada sobre a mesa. De nada adiantava a caixinha com a indicação "correspondências aqui". Devem ser todos analfabetos, esses contínuos. Não gostava dos redatores e tinha verdadeiro pavor dos colunistas sociais e dos da seção de cultura. Considerava uma traição dos colegas o desprezo com que trataram seu romance. Uma pequena nota sem foto foi tudo o que havia conseguido, isso depois de ajular muito os colegas. Só sabem falar de melodramas onde a menininha bonitinha sempre morre ou de vampiros iluminados. Coisas de velha e de viado.
     E por falar em viado, tinha desprezo total pelo editor-chefe, uma bichinha mal saída da Cásper Líbero que achava-se no direito de questionar sua postura em seus textos, só porque era sobrinho do dono. Pelo menos essa era a desculpa. Achava essa relação titio-sobrinho muito estranha, mas não se atrevia a comentar sobre, afinal, tinha aluguel, supermercado, conta de gás e luz e lavanderia para pagar.
     No final do expediente daquela sexta-feira, depois de horas suando e nada produzido, resolveu que merecia um descanso. Pelo menos merecia um café decente, não aquela água de batata que serviam na redação. Pegou um de seus textos antigos que ficavam arquivados no gaveteiro embaixo da mesa e enviou para que fosse publicado. Era antigo, ninguém se lembraria de já tê-lo lido. Não haveria problemas em republicá-lo. Era atemporal. 
     Afrouxou o nó da gravata assim que entrou no mal iluminado bar. Essas pocilgas estão sempre entregue às moscas. Ninguém faz manutenção e os clientes têm que beber no escuro. Como um bar qualquer do centro da cidade, talvez fosse melhor não vê-lo bem iluminado. Preferiu o balcão à mesa. Não demoraria. Dispensou o café e pediu uma cerveja. Precisava relaxar. Foi atendido por um garçom alto e loiro, de olhos azuis brilhantes. Tomou um gole e mais outro. Outros senhores e rapazes passavam por ele, mas era como se estivesse sozinho. Não conversava com os demais, nem comentava o resultado da rodada. Não tinha paciência para conversa, nem para futebol.
     Depois de mais alguns goles, precisou aliviar a bexiga. Não lembrava de quando bebera tanto. Preguntou pelo banheiro e o rapaz dos brilhantes olhos azuis indicou uma porta pequena bem no fundo do estabelecimento, perto de uma luminária que irradiava uma fraca luz amarela.
     Estava no meio do processo quando a porta abriu e o garçom que o atendera entrou. Parou no mictório ao lado. Olhos para o teto. Nada de olhar para o lado. É a lei universal do banheiro masculino: nunca olhe para o lado.
     - Oi, me chamo Kelvin Luiz, mas aqui me chamam de Keluz. Você está sozinho?
     Mas o que era isso? O cara, além de olhar para o lado estava puxando conversa dentro do banheiro perguntando se eu estava sozinho? O que ele pensou? Que eu responderia?
     Fechou o zíper e foi até a porta. Não lavou as mãos. Perguntou quanto devia e abriu a carteira. O garçom estendeu-lhe o papel com o valor a ser pago e ficou parado, esperando. Entregou uma nota de cinquenta e dispensou o troco. Queria sair dali. Antes de ir, porém, pediu que o rapaz dos luminosos olhos azuis se aproximasse. Iria dizer umas boas para ele e nunca retornaria àquele lugar.
     - Kelvin Luiz...
     - Pode me chamar de Keluz, é como todos...
     Mas não o chamou assim. Agarrou o rapaz pelo colarinho e antes que qualquer pensamento lhe ocorresse, desferiu um beijo em sua boca. Virou-se e saiu. Nunca mais bebeu cerveja.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mulheres...

Para Leonardo Davino

                Já fui como Martinho e tive muitas mulheres, de todas as cores, de várias idades, do tipo acanhada, do tipo feliz... enfim, mulheres como todas as que andam por aí. Algumas não passaram de um copo, outras duraram uma garrafa, poucas, enfim, ficaram para sempre.
                Ainda adolescente conheci Clara, que me tirou da vida errada que eu começava a desenhar para mim, influência de “pseudoamigos” que naquela época só queriam se divertir e aproveitar o momento sem pensar nas consequências que aquilo poderia trazer para as nossas vidas no futuro. Clara era uma mulher de presença, morena de cabelos esvoaçantes e renda branca por quem me apaixonei à primeira vez que lhe vi. Ouvi-la fez-me ter certeza da existência de Deus. Clara era telúrica. Ainda hoje, vinte anos depois da nossa primeira vez continuo amando-a. Ela é para sempre, as outras são para momentos.
                Angela, tive duas: uma era companhia de noites escuras e whisky; a outra, de tangos e baladas. Tive Alaide, Beth e Clementina. Selma, Teresa e Vanessa. Tive espanholas, argentinas e americanas. Canadenses, colombianas e italianas. Dulce era portuguesa, Edith, francesa, ambas com tendência ao amor exagerado e à tragédia. Surgiram em minha vida nos momentos mais difíceis. As minhas nuvens negras se somaram às delas e tempestades invadiram e lavaram as nossas almas. Laura sempre foi romântica e Mercedes, guerreira.
                Rita, também foram duas: uma louca e a outra macumbeira. Sempre fui muito eclético. Nunca me foquei em apenas um nome ou estilo. Marias, por exemplo, nem sei quantas foram e cada uma com seu jeito especial, me tocando de formas diferentes: docemente, fragilmente, libidinosamente. Fabiana era chegada ao pagode, não dispensava arrasta-pé. Mulata faceira. Joanna conheci nos arcos da Lapa e Mariene no Elevador Lacerda.
Enfim, mulheres da minha vida, que fizeram, fazem ou ainda farão parte dela, porque sou visionário e penso no futuro. Mas o mercado está ficando escasso, preciso fazer novas conquistas. Mas isso, amanhã. Para hoje, a agenda já está fechada: café com Simone, almoço com Dolores, jantar com Elza e cama com Lorenna.