sexta-feira, 24 de julho de 2015

A menina que queria ser flor

Para Marili Alexandre

A menina que queria ser flor

            Todo dia era ela quem acordava o Sol. O astro-rei somente saía de sua casa após a garota dar-lhe “Bom Dia”. Quando acontecia de ela estar triste ou doente e permanecer na cama por mais tempo que o costumeiro, nesses dias, por tristeza ou por sentir-se injuriado, o Sol não aparecia, ficava escondido por detrás das nuvens. Seu choro era ouvido através dos raios e trovões e suas lágrimas inundavam a terra levantando um doce cheiro de saudade. Mas bastava que a janela da menina se abrisse para que o Amarelo pintasse imediatamente o dia de azul.
            Rosas, cravos e margaridas. Às vezes girassóis, mas nunca crisântemos. Crisântemos é a flor dos mortos e a vontade da moça sempre foi a de alegrar os vivos com suas flores. Na entrada da feira local ou pelas ruas do bairro a carregar um cesto com suas flores, ela distribuía romance, carinho, paixão... Realizava o sonho de jovens moças que esperavam ansiosas por um buquê de flores em suas portas no dia seguinte, salvava jovens maridos – e os nem tão jovens assim – de algum esquecimento. Muitos aniversários e comemorações foram mais felizes por sua causa.
            Retornava para casa já tarde, acompanhada de seu amigo. Antes de despedir-se, ofertava-lhe um delicado cravo, nunca uma rosa, que á flor da paixão e não fica bem para uma moça dar-se ao desfrute de oferecer-se em flor a um rapaz. Amizade era uma coisa, amor... isso era para casamento. Mas o cravo, esse sim demonstra todo o respeito com que um moço de boa família deve ser tratado. A flor era deixada no gramado ao lado da porta de entrada da casa da menina. Ela entrava sem olhar para trás e o Sol despedia-se morosamente, derretendo-se por detrás das montanhas. A Lua, apaixonada que era pelo Sol, mulher muito dengosa e vaidosa, enchia-se de raiva com esses galanteios. Não compreendia por que o Sol abria-se todo por causa de uma simples flor, enquanto ela que lhe oferecia o brilho de todas as estrelas do universo não dispunha de sua presença. Raramente se encontravam. Acontecia esporadicamente de a Lua permanecer por mais tempo no céu e tocar rapidamente nos raios do Sol, mas ele, com olhos apenas para a menina, fingia não notar seu atrevimento.
            Se a Lua soubesse o quanto a menina também a adorava talvez sentisse menos ciúmes. Pode ser que ela até desconfiasse disso, pois em certos dias era possível vê-la sorrindo enquanto a menina sonhava. E sonhar era o que a garota mais gostava de fazer. Sonhava com coisas de que gostava: de pisar na areia molhada da praia e pegar conchinhas trazidas pelas ondas; de subir bem alto no morro e olhar até enxergar o perder de vista e algodão doce. Adorava sonhar com algodão doce. Ficava imaginando como alguém conseguia ir até o céu para pegar as nuvens e enrolá-las em palitinhos para serem vendidos na feira. Devia ser para isso que serviam as aeronaves. Já ouvira dizer que elas levavam as pessoas pelo ar, mas não acreditava muito nisso. Para ela, os aviões eram imensas colheitadeiras de nuvens para fazer algodão doce. Já havia sonhado que era piloto de uma dessas máquinas e que trabalhava em uma fazenda de algodão doce no céu. Ela sonhava que era um monte de coisas, mas que era sempre ela, nunca o outro, porque sonhar em ser o outro é negar sua própria existência. E ela adorava existir.
            Tinha um sonho que ela gostava mais do que dos outros: sonhar que era flor. Ser flor não é ser gente, então não há problemas em sonhá-lo. Tinha noites em que sonhava que era rosa, uma rosa solitária e vermelha deixada na porta de uma feliz garota. A campainha tocada e de longe um rapaz, escondido atrás de uma velha árvore a via ser pega e tocada delicadamente pelo espanto e pelo calor da amada. O olhar da moça procurava ao redor e depois as duas entravam em casa. Ela seria guardada entre as páginas de um livro de poesias e traria, num futuro longínquo, doces lembranças para as doces rugas da então senhora; outrora era um cravo ofertado a um pai com todo o respeito e admiração que os pais merecem. Já sonhou ser uma vidente margarida bem-me-quer mal-que-quer na angústia de uma adolescente ou um girassol retratado em um famoso quadro que vira retratado em uma revista há algum tempo. Nunca sonhou ser crisântemo, que é flor de mau agouro.
            Durante aquela noite um mal estar súbito a consumiu em calores e água. Por dias o Sol não apareceu, apenas suas lágrimas caindo sem parar do céu. De noite, a Lua ria o sorriso do gato de Alice. Um sorriso branco para uma noite preta. A Lua acreditava ter chegado a sua vez de ser feliz, mas o Sol... nunca estivera tão triste.
            Quando finalmente acordou, dias e dias depois, não mais chovia, mas o chão estava úmido. O quarto estava escuro e algo estranho acontecia: seus braços e pernas estavam compridos espalhando ramas pelo chão; seu coração em flor era rosa desabrochada; seus cabelos, um buquê de margaridas e seus belos olhos haviam se tornado dois grandes cravos. Tinha apenas um desagrado: o lençol de crisântemos que a envolvia.

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