terça-feira, 16 de junho de 2015

Tec Tec Ponto
                                               Para Sabrina Paixão

Essa história começa com reticências pelo simples fato de ser desconhecido o que havia antes desses primeiros “tecs” da máquina de escrever. Tudo o que sabemos é que ele agora está sentado em sua escrivaninha, máquina à frente de seu corpo, dedos sobre as teclas como aprendera no cursinho de datilografia que fez quando ainda estava no Ginásio;  cesto ao lado, papéis amassados e jogados no chão de madeira cuja cor quase não se via. Um gato preto e gordo dormia sobre Machado, Eça e Pessoa jogados no chão. Não conseguira inspirar-se com os olhos de ressaca de Capitu, nem com o amor eterno e impossível, tampouco com tudo valer a pena se a alma não for pequena. Nada. Esperou tanto por esse momento e agora que o tinha nas mãos... nada.
ASDF ÇLKJ ASDF ÇLKJ ASDF ÇLKJJJJJJJJJJJJJFDSJDGHJFDSGASJGREOIUOIHRHI MJTWG. Confusão mental. Estresse. Uma nuvem branca em sua mente, uma nuvem verde em sua sacada. Observava os carros 18 andares abaixo. A lua, entre nuvens, milhares de andares acima. Pensou em todos os anos que havia dedicado ao magistério e agora, somente agora, o reconhecimento: Paraninfo de turma. Já mandara para o tintureiro o antigo terno preto solene e a camisa branca respeitável. Pessoas de branco são sempre respeitáveis. É impossível ofender uma pessoa que esteja toda vestida de branco. A gravata, letras ametista. Sapatos negros de dar inveja a qualquer soldado lustrador. Mas as meias... essas seriam vermelhas... toda a formalidade imposta pela solenidade seria contrariada pelas meias vermelhas. Seria um contraventor, afinal.
Lembrava-se, diante da página em branco, de sua professora da 1ª série que há muitos anos havia lhe ensinado a escrever em uma página em branco com pautas a serem preenchidas pela caligrafia garranchosa que o acompanharia pelo resto de sua vida. Páginas em branco sempre o fascinaram. Colecionava cadernos pelo simples fato de olhar as páginas em branco esperando pela carícia esferográfica de uma caneta. Mas ele não escrevia à mão. Tinha letra garranchosa. Falaria sobre isso em seu discurso? Bobagem. O momento exigia reflexões profundas acerca do futuro da nação e da modernização que assola o planeta e que muito em breve deixará milhões sem emprego sendo substituídos por robôs. Sim, falaria sobre o futuro. Mão levantada. Primeiro toque a ser desferido. Mas como falar de futuro se ele mesmo não tinha certeza de sua existência? O futuro é o hoje que nunca vai chegar. Na verdade somos sempre passado e presente. O futuro só existe nas conjugações verbais. Mãos sobre a mesa.
“A vida é um papel em branco que como este vai ganhando continuamente significado através das nossas ações, dos ‘tecs’ da máquina de escrever, do rolar do bolígrafo que o mancha com sua tinta azul, às vezes vermelha. Ver o papel em branco é fascinante. É um mundo de possibilidades que se abre, mas apenas imaginar não é o suficiente, é preciso fazer. Vislumbrar o futuro é besteira, trazê-lo para o presente é que é bacana. Imaginem, mas façam. Peguem o papel em branco e risquem, rabisquem, só não apaguem. O papel aceita a borracha, o corretivo... a vida, não. Por mais que tentamos apagar, os erros estarão lá. Mas errar é bacana também... Quem nunca errou que passe o primeiro ‘liquid paper’! Quem dera a vida fosse feita de várias páginas em branco que pudessem ser descartadas e substituídas. Mas, não é! Por isso, pensem no que vocês vão escrever em suas páginas, na tinta que usarão, na tipologia... enfim, páginas com muitos ‘tecs’ para todos vocês! Obrigado”.

No fim, não era um contestador, era somente ele.

Um comentário:

  1. Como dizer...lindo! A poesia que se aninha nos espaços em branco, entre os tecs e clicks, varando a madrugada, enchendo as manhãs, inundando as bocas.
    Encontrei o que ler no próximo sarau!
    E aguardo um tema para uma crônica.

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